04
2026
Da bicicleta elétrica à casa própria: como haitianas reinventam a vida em MS
Todas as pessoas migrantes vivem desafios diários, mas cada uma os vivencia de forma diferente conforme seu gênero, sua raça, sua classe social e até sua crença religiosa. É essa realidade que a professora Juliana Tomiko Ribeiro Aizawa investigou em sua tese de doutorado, ao acompanhar a história de vida de cinco mulheres haitianas que reconstruíram suas vidas em Dourados e em Três Lagoas. O trabalho conquistou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Teses, Dissertações e Monografias da Rede Nacional das Cátedras Sérgio Vieira de Mello, do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados.
Defendida em novembro de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), sob orientação do professor Jones Dari Goettert, a tese "Corpos em altermobilidade: diásporas de mulheres haitianas em Mato Grosso do Sul" mostra como essas mulheres contornam barreiras institucionais criando estratégias próprias. A esse fenômeno, Juliana chama de altermobilidade, conceito que organiza a tese: a capacidade de criar caminhos alternativos quando as políticas públicas impõem espera, burocracia e imobilidade.
A professora Juliana atuou por mais de uma década como voluntária em pastorais migratórias e em projetos universitários que atendem migrantes. Foi auxiliando migrantes internacionais a regularizar seus documentos e fazendo atendimento jurídico a haitianos em Três Lagoas e em Dourados, que ela observou as formas como as mulheres vindas de outros países desenvolvem a altermobilidade. Uma dessas mulheres troca a longa espera pelo ônibus por uma bicicleta elétrica e percorre mais de dez quilômetros por dia vendendo cocada. Duas famílias se unem para comprar um terreno, desmembrá-lo em dois e erguer a casa própria em etapas, conforme o acerto trabalhista e o salário permitem. O lalu, o quiabo haitiano, é vendido a clientes de Campo Grande e São Paulo por valores que pagam a passagem e ainda sobram para dividir. Essas escolhas não são apenas um esforço por melhores condições de vida, mas revelam escolhas cotidianas que buscam valorizar e preservar tradições e aspectos culturais de seu país de origem, bem como enriquecem de significado as novas experiências vividas no Brasil.
Além das peculiaridades dessas famílias entrevistadas, a pesquisa também dimensiona a presença dessas mulheres. Entre 2010 e 2025, o Brasil registrou 197,5 mil entradas de haitianos, sendo 77,4 mil mulheres. No mercado formal, elas respondem por cerca de 30% das admissões, contra 60% dos homens, e os rendimentos raramente ultrapassam dois salários mínimos. No mesmo período, das 41.530 solicitações de refúgio feitas por haitianos, apenas quatro foram deferidas pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), e somente uma haitiana foi reconhecida como refugiada. No entanto, a pesquisa contraria a imagem de passividade que costuma cercar as mulheres migrantes, pois indica a agência dessas pessoas em busca de uma vida melhor.
A partir do diagnóstico, a tese faz recomendações de políticas públicas necessárias. Juliana defende a reforma da Portaria nº 51/2024, com a inclusão de recorte de gênero e de canais humanitários alternativos efetivos, além da concessão de refúgio a mulheres e crianças haitianas, hoje enquadradas como migrantes forçadas pelo visto humanitário. Na operação dos serviços públicos, propõe a tradução de prescrições com apoio de ferramentas de inteligência artificial, a capacitação de agentes da saúde, da educação e da assistência social e a oferta de certificados de língua portuguesa pelo MEC, documento exigido no processo de naturalização. Municípios como Três Lagoas, segundo a pesquisa, ainda não têm iniciativas estruturadas de ensino de português para migrantes - uma ação que promove a integração e adaptação mais fácil a essas pessoas.
A tese foi considerada o melhor trabalho de doutorado, em premiação promovida pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Juliana Aizawa é graduada em Direito pela UFMS, cursou o mestrado em Fronteiras e Direitos Humanos na Faculdade de Direito e Relações Internacionais da UFGD. Atualmente é professora de Direito Processual Civil na UFGD, onde coordena o Grupo de Estudos em Migrações Internacionais e Refúgio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello. Criada pelo ACNUR em 2003, a Cátedra atua em educação, pesquisa e extensão, com prioridade para a formação acadêmica e o trabalho direto com a população refugiada. Na UFGD, foi constituída em 2015 e desde então articula projetos junto às comunidades migrantes e refugiadas de Dourados e região. Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail csvm@ufgd.edu.br ou na página do ACNUR Brasil.
Divisão de Jornalismo e Divulgação do Conhecimento – DJOC/DADIC/GABRTR/UFGD


